Após 28 anos de ausência, a RPX voltou a ser publicada em Janeiro de 2008, sob o patrocínio da Direcção da FPX e com promessas que acabou por não poder cumprir.
O último número de 2008 nem sequer chegou a entrar na tipografia, vários assinantes queixosos relativamente à devolução dos valores correspondentes a um segundo ano de assinatura e sem outras explicações que não fossem as do comunicado de um dos editores, em Janeiro de 2009, a demitir-se das suas funções.
Da Direcção da FXP nem uma palavra, até agora.
O mínimo que se exigiria a título de trabalho preparatório da reedição da Revista Portuguesa de Xadrez, que à partida iria sobreviver fundamentalmente com as receitas das vendas e da publicidade, teria resposta satisfatória com a realização de um estudo de mercado, um estudo de viabilidade económica e financeira do projecto. A responsabilidade da Direcção da FPX exigiria que fosse assegurada essa garantia. A não ser que já estivesse previsto derreter uma parte dos seus activos com a reedição da RPX.
A falta do estudo prévio não permitiu aos promotores identificar atempadamente as principais fragilidades do projecto em suporte de papel: um produto pouco apetecível, ao nível do custo e do conteúdo, sobretudo tendo em conta a concorrência no mercado de língua espanhola, francesa e inglesa e a gratuitidade de alguns dos seus conteúdos disponíveis na Internet; o baixo número de potenciais interessados na aquisição da revista; o baixo interesse dos potenciais anunciantes e dos publicitários; e, por último, perante esse cenário, o facto das receitas previstas não permitirem cobrir satisfatoriamente os custos de produção (previsíveis através de uma simples orçamentação).
Das responsabilidades assumidas pelo fracasso ficam para a história apenas as do editor Paulo Dias (que se acredita terão sido extensíveis a Vasco Diogo, o outro editor) publicadas em alguns blogues, nomeadamente no blogue da revista (http://revistapxadrez.blogs.sapo.pt/).
Incentivados ou não, os editores apresentaram a proposta à FPX e foram pagos pelo seu trabalho. Segundo o Orçamento de 2009 cada número da revista terá custado 720 € em honorários pagos a troco do trabalho de edição. No total, 3.600 €. A responsabilidade pela revista é da FPX. É a imagem da FPX que está em causa. São recursos da FPX que estão em causa. A FPX patrocinou a reedição da revista e disponibilizou-se a pagar o trabalho. Ao que parece, nem sequer avaliou o risco desse investimento.
Dos dirigentes da FPX nem uma palavra, um esclarecimento sobre a interrupção da publicação da revista, uma explicação aos assinantes. Mesmo no Relatório de Actividades de 2008 a informação é escassa: aparece apenas uma imagem do número zero da revista. E no que respeita às contas da FPX? Quais terão sido os resultados do projecto?
Segundo a informação divulgada pelos editores, a RPX publicada em suporte de papel necessitaria de pelo menos 1.500 assinantes para suportar os custos de produção e distribuição. As vendas reais rondariam os 300 exemplares por número, a esmagadora maioria assinantes. Publicidade zero ou quase.
No entanto, da lista Elo da FPX constam 5.300 xadrezistas filiados em 2008-2009 e cerca de 2.000 não filiados. Quase 25 vezes mais o número de compradores da revista. A fatia de mercado que interessaria aos publicitários e anunciantes estaria nos 7.000 que não assinavam a RPX.
A nova edição (2008) da RPX era um produto atraente? Bastaria compararmos com a edição da espanhola Peón de Rey para termos uma resposta negativa. Os custos seriam quase iguais e os benefícios maiores (conteúdo e serviços periféricos) a favor do produto espanhol. Muitos xadrezistas portugueses assinam a revista Peón de Rey. Há um custo marginal suportável pelos leitores portugueses da Peón de Rey que é função directa dos benefícios usufruídos com a assinatura e que ultrapassam os conteúdos da própria revista.
Será que a FPX esperava que o sentimento patriótico dos xadrezistas portugueses influenciasse a
Os custos de produção (excluindo os pagamentos aos editores) e de distribuição da RPX rondariam os 67%.
Uma RPX electrónica (acessível via download) eliminaria os custos da tipografia (3.900 € segundo Orçamento 2009) e os custos de distribuição (4.000 € de portes segundo Orçamento 2009). Considere-se que os custos de edição se mantinham (de 3.600 €; 720 € por número da revista, segundo o Orçamento de 2009).
Mantendo-se os custos com honorários pagos aos editores, uma edição electrónica da RPX custaria 31% do valor da edição em suporte de papel. A RPX poderia ser vendida aos xadrezistas a 8 €/ano (seis números) para um universo de 7.300 xadrezistas, sem considerar receitas de publicidade.
No entanto, um produto que tem por destinatários 7.300 leitores será mais apetecível para publicitários e anunciantes.
Se o custo fosse zero euros e a revista pudesse ser descarregada online, esse número poderia ascender às várias dezenas de milhar olhando ao mercado de língua portuguesa. E a RPX seria um produto ainda muito mais atractivo para publicitários e anunciantes.
E se o pacote de serviços periféricos disponibilizados contra o pagamento da assinatura fosse atraente quando comparado com outras ofertas similares, até seria possível vender a RPX aos xadrezistas espanhóis.
Nota 1: Para comparação com o serviço oferecido contra assinatura da revista española Peón de Rey consultar http://www.ajedrez21.com/pdr/; a proposta da RPX está disponível em http://www.fpx.pt/rpx0-publicar.pdf
Nota 2: sobre a história da RPX consultar http://historiadoxadrez.net/ e http://revistapxadrez.blogs.sapo.pt/
Nota 3: Excertos do comunicado de Paulo Jorge Guimarães Dias publicado no dia 15 de Janeiro de 2009, no blogue http://revistapxadrez.blogs.sapo.pt/
“(…) quase total ausência de publicidade e patrocinadores, e também uma baixa percentagem, em relação ao número de filiados e entusiastas do Xadrez, considero não ser viável a continuidade da Revista, pelo menos nos moldes actuais.
A Revista acarreta um elevado prejuízo financeiro para a Federação Portuguesa de Xadrez pois a sua impressão é bastante dispendiosa, usualmente, só a partir de tiragens acima dos 1500 exemplares uma revista poderá ter condições para subsistir. (…)”
“(…) o empenho da Direcção da Federação Portuguesa de Xadrez que abraçou este projecto e proporcionou a viabilização do mesmo. (…)”
“(…) Penso que o Xadrez e os xadrezistas atravessam uma crise de motivação e que só uma profunda mudança de mentalidades poderá fazer com que esta situação se altere. (…)”
Nota 4: Excertos do Editorial da quarta RPX, também publicado no dia 28 de Setembro de 2008 em http://revistapxadrez.blogs.sapo.pt/
“Esta é já a quarta rpx de 2008 e é agora obrigatório fazer um balanço sobre as vantagens e desvantagens da existência da Revista. Com pouco mais de 300 assinantes e poucas vendas para além das assinaturas, é preciso referir que estes números estão muito abaixo das expectativas de todos os seus responsáveis. Também a publicidade na Revista é praticamente nula, isto torna o projecto inviável financeiramente e que se tem mantido apenas porque os assinantes que temos o merecem e na esperança que contribua para a divulgação do Xadrez. Obviamente, as responsabilidades deste insucesso têm de ser por nós assumidas. (…)”
“(…) Uma Revista de Xadrez parece ser uma boa contribuição para isso, mas não se pode ignorar a realidade dos factos. Apesar de estarmos felizes com algumas manifestações de agrado dos nossos assinantes, os números são escassos, muito escassos. (…)”
“(…) Neste número, reduzimos para 48 páginas a Revista, acima de tudo por motivos financeiros, lamentamos mas prometemos fazer um esforço adicional para compensar esta perda pela qualidade. (…)”
Nota 5: No que respeita às contas de 2008 ver rubrica “Proveitos Diferidos” relativos a assinaturas da RPX na ordem dos 3.535 €, acessível em http://fpx.weebly.com/uploads/1/3/7/1/137131/fpx__relatrio_e_contas_2008.pdf
Nota 6: No que respeita ao Orçamento de 2009 (aprovado em AG ordinária de 9-11-2008) http://fpx.weebly.com/uploads/1/3/7/1/137131/fpx_orcamento_2009.pdf constam custos imputáveis ao projecto da RPX na ordem dos 11.500 € (3.900 € de custos de impressão, 4.000 € de custos de distribuição e 3.600 € de custos com honorários). Ao nível dos proveitos constam 8.000 € de receitas relativas a vendas e assinaturas da RPX. Consulte-se também a acta da AG ordinária de 9-11-2008, acessível em http://fpx.weebly.com/uploads/1/3/7/1/137131/acta_09112008_ordinaria.pdf
Nota 7: Sobre o projecto da RPX e as acções realizadas em 2008 leia-se o Relatório de Actividades de 2008, acessível em http://www.fpx.pt/2008-09/Relatorio_de_Actividades_FPX_2008.pdf.
Nota 8: Sobre o futuro da RPX leia-se o Plano de Actividades da FPX para 2009, disponível em http://fpx.weebly.com/uploads/1/3/7/1/137131/plano_actividades_fpx_2009.pdf.
Post-Scriptum: os dados sobre os custos de distribuição contemplados no Orçamento de 2009 estão agora mencionados no artigo e, obviamente, por maioria de razão, reforçam a ideia de que uma edição electrónica ficaria muito mais barata que uma edição em papel. De modo que, mantendo tudo o resto igual (conteúdo da revista e custos com edição), a RPX poderia ser vendida a 8 €/ano (seis números). Também fica reforçada a ideia de que a Direcção da FPX não fazia a menor ideia daquilo em que se estava a envolver ao querer reeditar a RPX nos moldes em que o fez.




0 comentários:
Enviar um comentário